O jejum de 24 horas ganhou popularidade nos últimos anos como estratégia para perda de peso, desintoxicação e melhora da saúde metabólica.

Mas antes de adotar essa prática, vale entender o que realmente acontece com o corpo quando ficamos um dia inteiro sem comer, quais os benefícios comprovados e em quais situações essa abordagem pode fazer mais mal do que bem.

A resposta não é simples. O jejum prolongado afeta o organismo de formas diferentes dependendo do tempo, do perfil de quem pratica e dos hábitos alimentares do dia a dia. Entender esses mecanismos ajuda a tomar uma decisão mais informada.

O que acontece com o corpo ao longo de 24 horas sem comer

O organismo humano foi desenhado para lidar com períodos de escassez de alimento. Quando paramos de comer, ele passa por uma série de adaptações metabólicas que acontecem em etapas.

Nas primeiras horas, o corpo usa a glicose disponível na corrente sanguínea e no glicogênio armazenado no fígado e nos músculos. Esse estoque costuma durar entre 8 e 12 horas, dependendo do nível de atividade física e do metabolismo individual.

Quando a reserva de glicogênio se esgota, o metabolismo começa a transitar para a queima de gordura como fonte principal de energia.

O fígado passa a produzir corpos cetônicos, substâncias derivadas da gordura que servem como combustível para o cérebro e outros órgãos. Esse processo se chama cetose.

Outro processo que se intensifica durante o jejum prolongado é a autofagia, um mecanismo celular de “limpeza” em que as células eliminam componentes danificados ou disfuncionais.

Essa é uma das razões pelas quais o jejum tem sido estudado como possível aliado contra o envelhecimento celular e algumas doenças crônicas.

Possíveis benefícios do jejum de 24 horas

A prática tem sido estudada por pesquisadores em diferentes contextos. Alguns dos efeitos mais descritos incluem:

  • Melhora na sensibilidade à insulina, o que pode ajudar a regular os níveis de açúcar no sangue
  • Redução de marcadores inflamatórios em algumas populações
  • Estímulo à autofagia, com potencial efeito protetor sobre as células
  • Redução do peso corporal quando combinado com uma alimentação equilibrada no restante da semana

É importante destacar que a maioria dos estudos foi feita com protocolos específicos de jejum intermitente, e nem sempre com jejuns de exatamente 24 horas.

Os resultados variam bastante conforme a frequência com que a prática é adotada, o estado de saúde da pessoa e o que é consumido fora dos períodos de jejum.

Efeitos colaterais mais comuns

O jejum de 24 horas não é isento de efeitos indesejados, especialmente para quem está começando ou para quem tem um histórico alimentar irregular. Os mais relatados são:

  • Dor de cabeça, especialmente nas primeiras experiências
  • Tontura e fraqueza, principalmente em momentos de maior esforço físico
  • Irritabilidade e dificuldade de concentração ao longo do dia
  • Episódios de hipoglicemia em pessoas com predisposição
  • Compulsão alimentar na refeição seguinte ao jejum, o que pode comprometer o objetivo de perda de peso

Esses efeitos tendem a diminuir com a adaptação do organismo, mas em algumas pessoas persistem e indicam que essa não é a abordagem mais adequada para o perfil delas.

Para quem o jejum de 24 horas não é recomendado

Apesar da popularidade, o jejum prolongado não é uma prática universal. Existem grupos para os quais essa estratégia pode ser contraindicada ou exigir acompanhamento médico:

  • Pessoas com diabetes tipo 1 ou que fazem uso de insulina
  • Grávidas e mulheres em período de amamentação
  • Pessoas com histórico de transtornos alimentares
  • Adolescentes em fase de crescimento
  • Pacientes com problemas renais, hepáticos ou cardiovasculares sem avaliação médica prévia

Mesmo para pessoas sem diagnóstico de doenças crônicas, iniciar qualquer protocolo de jejum prolongado sem orientação profissional representa um risco que muitas vezes é subestimado.

Jejum de 24 horas versus déficit calórico: qual a diferença na prática?

Uma dúvida comum entre quem busca emagrecer é se o jejum de 24 horas tem alguma vantagem sobre uma dieta com restrição calórica distribuída ao longo do dia. A resposta depende do objetivo.

Do ponto de vista da perda de peso, o que importa no longo prazo é o balanço energético total. Uma pessoa que faz um jejum de 24 horas mas exagera na refeição seguinte pode acabar consumindo as mesmas calorias que consumiria sem o jejum.

O diferencial do jejum prolongado está em outros mecanismos, como a ativação da autofagia e o tempo em que o organismo permanece em estado de cetose. Esses efeitos não são alcançados com uma simples redução calórica.

Para quem tem como objetivo específico trabalhar esses mecanismos, o jejum pode ter vantagens que vão além da balança. Para quem busca apenas emagrecer de forma sustentável, uma dieta equilibrada e bem planejada tende a ser mais fácil de manter e menos desgastante.

Como fazer o jejum de 24 horas com mais segurança

Para quem recebeu liberação médica e decide experimentar o jejum de 24 horas, algumas práticas ajudam a tornar a experiência mais segura e confortável.

  • Hidrate-se bem ao longo de todo o período. Água, chás sem açúcar e água com eletrólitos são bem-vindos
  • Escolha um dia de menos atividade física intensa para começar
  • Faça uma refeição nutritiva e equilibrada antes de iniciar o jejum
  • Quebre o jejum com alimentos de fácil digestão, como frutas, ovos ou iogurte natural
  • Evite eventos sociais com comida durante o dia de jejum, especialmente nas primeiras vezes

Afinal, vale a pena fazer o jejum de 24 horas?

O jejum de 24 horas pode ser uma prática interessante para pessoas saudáveis que buscam explorar os benefícios metabólicos do jejum prolongado, desde que feito de forma consciente e com aval de um profissional de saúde.

O problema surge quando a prática é adotada de forma impulsiva, sem preparo e sem considerar o perfil individual. O corpo humano é complexo, e o que funciona bem para uma pessoa pode não funcionar, ou até ser prejudicial, para outra.

A melhor estratégia continua sendo a mesma que a ciência aponta há décadas: alimentação variada, rica em alimentos naturais, combinada com atividade física regular e acompanhamento profissional. O jejum pode ser uma ferramenta dentro desse contexto, mas dificilmente é uma solução isolada.

Antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, consulte um médico ou nutricionista. Cada organismo tem suas particularidades, e um profissional pode ajudar a avaliar se essa prática faz sentido para o seu caso específico.

Fátima Watanabe

Fátima Watanabe, biblioteconomista formada pela UFMG, iniciou sua carreira escrevendo sobre Dante Alighieri. Atualmente, é pesquisadora, utiliza palavras-chave na didática e produz editoriais e artigos.