Maria Beatriz Silva18/abr/2026

O autocuidado virou performance e até descansar parece exigir perfeição. Nesse cenário, surge um movimento que valoriza o simples, o imperfeito e o real como forma de aliviar a sobrecarga mental.

O descanso passou a ser influenciado pelas redes sociais, sendo transformado em algo estético e associado à produtividade visual. Isso aumenta a autocobrança e a dificuldade de relaxar. A comparação constante com padrões idealizados pode gerar ansiedade, perfeccionismo e sensação de inadequação mesmo em momentos de pausa.

Isso é reforçado pela exposição a rotinas perfeitas e pela confusão entre autocuidado e performance. Descansar sem um padrão estético definido pode diminuir a ansiedade e melhorar o bem-estar mental.

Um conceito ligado a essa ideia é o da “psicologia da camiseta velha”. Trata-se do conforto emocional associado a roupas simples e já usadas, que despertam sensação de segurança e relaxamento. Tecidos conhecidos e menos estimulantes reduzem a sobrecarga sensorial e ajudam a diminuir a ativação do sistema de alerta do cérebro.

Essa psicologia está ligada à regulação sensorial, menor estímulo cognitivo e redução da autocrítica, favorecendo o descanso mental. Da mesma forma, ser ruim em alguma atividade pode fazer bem, pois reduz a pressão por desempenho e permite fazer coisas apenas pelo prazer, sem cobrança por resultado.

Esse tipo de experiência diminui o perfeccionismo, reduz o estresse e favorece um estado mental mais leve. Hobbies considerados “imperfeitos”, como pintar, escrever livremente ou cozinhar sem regras rígidas, ajudam a mente a relaxar e se expressar sem julgamento.

A prática da imperfeição no dia a dia ajuda a reduzir o estresse e torna o descanso mais real. Por outro lado, o autocuidado quando transformado em conteúdo visual pode perder sua função original de descanso e se tornar mais uma obrigação estética.

Isso gera um ciclo de comparação e exaustão mental. A pressão para manter rotinas perfeitas, com produtos específicos e ambientes organizados, pode aumentar a carga cognitiva em vez de reduzi-la.

A imperfeição funciona como uma válvula de escape para o perfeccionismo moderno. Permitir-se ser “desleixada” em alguns momentos reduz a pressão interna e favorece o equilíbrio emocional.

Do ponto de vista psicológico, aceitar o imperfeito ajuda a desenvolver flexibilidade cognitiva, reduz autocobrança e melhora a relação com o próprio tempo. A chamada estética do desleixo produtivo não é um abandono de si mesma, mas uma forma consciente de desacelerar.

Ela propõe reduzir estímulos e recuperar o espaço mental ocupado pela necessidade constante de parecer perfeito. Em um mundo hiperestetizado, permitir-se ser imperfeita pode ser uma das formas mais profundas de autocuidado real.

Fátima Watanabe

Fátima Watanabe, biblioteconomista formada pela UFMG, iniciou sua carreira escrevendo sobre Dante Alighieri. Atualmente, é pesquisadora, utiliza palavras-chave na didática e produz editoriais e artigos.

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